domingo, 5 de maio de 2013

SOBRE HERÓIS

No tempo de minha mãe
os heróis combatiam
o capitalismo "salutar"
a ditadura militar
a polícia mídia
o exército ditatorial
a escola pública tradicional

No tempo de agora (meu tempo?)
os heróis combatem
o consumismo do capital
a democracia ditatorial
a polícia política
o exército residual
a escola pública atual

Só que


Não saem às ruas
Nunca gritam às escuras


Usam, disseminam e morrem de drogas
Não carregam o peso do mundo nas costas

Criticam, reclamam, não propõem os avanços
Não diferenciam processo, causa, consequência e ranços

Nadam na maré midiática da hora
Mas solucionam tudo com escola

Por que só eu infeliz
com a profissão por um triz

que falo do que constrói
a figura de um herói?


sábado, 27 de abril de 2013

reflexões sobre educação (de novo, né?)

EDUCAR NÃO É PRA FORMAR CIDADÃO
NÃO É ENSINAR
NÃO É APRENDER
NÃO É PLANEJAR
MENOS AINDA AVALIAR
EDUCAR NÃO É PRA PROFESSOR
NÃO É PRA ALUNO
NÃO É PRA PESQUISADOR
MENOS AINDA PRA ECONOMISTA E POLÍTICO
EDUCAR É PRA COMER
É PRA VESTIR
É PRA SENTIR
NÃO É VAGO
É SUB(OB)JETIVO

A MÃE DIZ:
- MENINO ESTUDE
PRA PASSAR DE ANO! PRA FAZER PROVA! PRA GANHAR PRESENTE! PRA FAZER CONCURSO!
O PROFESSOR DIZ:
- MENINO ESTUDE
MUDE!

Receitinha pra superar a alienação cotidiana: arte, ciência, política e EDUCAÇÃO (que deveria ser tudo isso misturado, temperado e servido em temperatura ambiente).

segunda-feira, 15 de outubro de 2012


MINHA REFLEXÃO SOBRE POR QUE PROFESSOR?
Eu não pude ser médica porque não aguentava as feridas do corpo. Não pude ser comerciante por não confiar completamente no que vendia. Não deu pra ser arquiteta, pois tinha mais o impulso de derrubar que construir. Não fiz direito por que entendo, mas não aceito a impunidade desse país. Não deu pra ser mecânica porque nem sempre substituo as peças velhas. Não deu pra ser dona de casa, porque precisava sustentar família...
como professora, vivo causando feridas...na alma, mas às vezes curo. Vivo vendendo sonhos ou pesadelos, a maioria inatingíveis, mas todos necessários. Prefiro dilacerar sempre as certezas para construir dúvidas das cinzas. Sou quase sempre parcial, transparente e tento ser justa. Prezo pela ordem, não pelas leis. Acredito que muita coisa antiga ainda funcione em conjunto sempre com novidades que as acrescentem ou melhorem (sou uma conservadora moderna). Não deu pra ser só professor porque precisava sustentar família...Essa sou eu: professora de corpo e alma!
Ana Paula Marques (15/10/2012)
Mas as minhas prediletas:


ESCOLA:

CHANCE

Menino magro
Do barracão
Mãe viciada
Pai ladrão
Sofre maus-tratos
De pé no chão
Olho social
Não tem função
Vão te tomar
Colocar na instituição
Te por na escola
Resolve não
Família é o forte
De qualquer cidadão
Amor não tinha
Amor tem não
Cadê solução?
Vai ser prostituta?
Vai ser traficante?
Vai ser ladrão?
Cadê sua chance
De dizer não?

(Ana Paula Marques)


AMOR FEDERAL

Menino pobre
Que vale muito
Quanto mais tiver
Maior o dote

A profissão?
Criar filhote
Quanto mais tiver
Maior a sorte

Ele vale gás
Ele vale água
Ele vale luz
Ele vale casa

Ele vale bolsa
Ele vale leite
Ele vale cesta
Não rejeite

Ele vale merenda?
Ela logo empreenda:
Comida
Mochila

Uniforme
Passagem
Material
O que falta, afinal?

Ah,
Ele vale escola
A mãe cadê?
Quer mais esmola

Trabalho não
Tem melhor função
Marido ladrão?
Vale muito na prisão

Lá vem pensão
Salário mínimo?
Pobreza não!
Esse é deficiente?

Meus Deus!
Coisa melhor, tente
Um salário pra mãe!
Do menino “doente”

Te crie na rua
Te crie na escola
Só não te entrego
Só não te nego

Que o governo
Abençoa
Sempre (que aberração!)
A mãe profissão

(Ana Paula Marques)


Pra ler e escrever

PROCUREI UMA RIMA
PRA MONTAR
UMA POESIA
FÁCIL DE ALFABETIZAR
NÃO ACHEI NADA
NEM AQUI
NEM ACOLÁ
PÉ RIMA COM CHULÉ
MAS É APELAÇÃO
PATO RIMA COM SAPO
MAS NÃO FAZ
NENHUM SENTIDO NÃO
O QUE FAZER ENTÃO?
O JEITO É
BRINCAR DE MONTAR
NUMA ORGANIZADA CONFUSÃO
QUEBRA-CABEÇA DE LETRAS
SÓ NO CARINHO E ATENÇÃO

(Ana Paula Marques)


Mapa

Frente à restrição estrita
Da linguagem cartográfica escolar
Frente à representação inócua
De símbolos, números, cores
Frente à diferenciação enlinhavada
Do movimento apático e chapado

No desenho inimitativo da criança
Vi, um dia:
A vastidão ilimitada cercada.

(Ana Paula Marques)


Vadiavaliando

A avaliação externa
Entra na escola
Mede/corta cabeças
Define políticas
Denomina a educação
Sai da escola
Mas diz:
- Sou só um instrumento
a mais...
- Sou um auxílio para reflexão
do professor...
Justiça? Seja feita!
A praga que Aquele aluno rogou
Na última prova
Caiu no professor!

(Ana Paula Marques)



A importância da escola

A sociedade precisa da escola
Pra formar o cidadão
A justiça recomenda a escola
Pro filho do ladrão

Cadê o suporte, então?
Só aparece avaliação!
Cota é enganação
Descrédito e abandono revelam a confusão

O traficante, o estuprador,
O assassino, o sequestrador,
Deixam o filho na escola
Pra botar terror

Com discurso desafiador
pais presos (melhor ainda)
Gordas bolsas, mérito devido
Ande na linha, Professor!

A criança tem direito
De destruir patrimônio, de quebrar colega e profissionais
Por que deveres, nessa sociedade
É crime, é bulling, não se ensina jamais!

Não toque, não reclame: tema!
Por que se ela for pega,
Tenha pena!Ela é só vítima do sistema!
E depois, te arrebenta!

“O professor ensina para a vida!”
E a vida o aluno ensina pro professor
O pedido de socorro, aquele abalador,
Tem na justiça o discurso mais conservador

(Ana Paula Marques)
           

Bulling da Escola de Todos

Na escola para todos
Todos entram
Menos a justiça
A igualdade
A oportunidade

O afrodescendente carente
Que tente
Porque cota
está na moda

O homossexual se exprime
(ou imprime?)
Porque homofobia (o contrário não)
é crime?

Os deficientes entraram
Por que as escolas “especiais”
acabaram
Também serviços “profissionais”

E “todo o resto”?

(Desculpem: “todos”
Porque resto é bulling)

Mas/mais (quase esqueço!)
Se esqueço, padeço!

O profissional menos
Com salário? Subsídio? Fenômenos!
Que dão (nem mais nem menos)
Aulas Tratamentos Passa-Tempos
Do “resto” menos

(Desculpem: nem “resto”
 nem “menos”,
mais que é bulling
Haja sofrimento(s)!)

Na escola menos de todos
Na sociedade de ninguém menos

(Ana Paula Marques)



O POBRE-COITADO

O pobre-coitado
Manda tomar
Depois vai desculpar
O pobre-coitado não deixa
Ninguém estudar
Mas ele vai mudar
O pobre-coitado
O Conselho Tutelar
Mandou deixar
Não pode expulsar
Tem que aceitar!
Quando, na sala, as calças tirar
É por que (coitado)
Atenção quer chamar
A escola
Vai aguentar!
Por que o pai
Droga tem que usar
A mãe
Bolsinha precisa rodar
Coitado do pobre-coitado
Que na escola quer descontar
E a oportunidade persiste em tirar
Da menina abusada pelo vizinho
Do moleque aviãozinho
Do adulto trabalhador
E do professor
Que só queriam aprender e ensinar
E seu futuro mudar
Pobre-coitado(s)!

(Ana Paula Marques)


CONFUSÕES DE ÉPOCA

Nenhum político se elege
Com promessas
de orfanatos
E sistemas prisionais

Todo político se elege
Com promessas
de escolas
E hospitais

E segue-se construindo escolas e hospitais

E segue-se educando
sem criar
Tratando
sem curar

Fique esperto!
Ao que é certo:
Não se pode nem aos pais
nem aos bandidos responsabilizar!

Punir é curar? Não sei bem,
Mas tenho a certeza de que a
IMPUNIDADE
É o mal dessa sociedade

E segue-se com
educação
sem o pai sem a mãe:
olha o órfão!

Prisão? Não!
Hospitais tratam
a agressão:tiros, facadas, tráfico
contra a: população!

Insuficiente
Por que nunca irão acompanhar
Um povo-órfão-doente
Que nem sabe no que votar

(Ana Paula Marques)


Mais poesias, agora sobre:

VIVÊNCIAS:

Óculos escuro

Comprei um óculos escuro
Só para tirar
A ofuscação do seu olhar

Comprei um óculos escuro
Pra enxergar
O tempo que você não viu passar

Quem sabe assim
Vai dar pra ver
Aquilo que nunca
Percebi em você?

Quem sabe assim
Vou encontrar
Fora da luz
O brilho do seu olhar?

Comprei um óculos escuro
Para na noite do dia envolver
Meu amor por você

(Ana Paula Marques)


Fobia estranha

Às palavras insulto
Pela sua maneira indecorosa
De sempre se acharem suficientes
Em traduzir tudo

Com fobia de palavras quero então exilar-me
No silêncio impenetrável das minhas entranhas
Na coma indizível
No pensamento intraduzível

Não quero mais dizer nada
Só quero sentir
Só quero olhar
A censura apreciar

Não quero traduzir o mundo
Não quero explicar a vida
Não quero encontrar saída

Só quero sentir
Essa fobia estranha
De manha tamanha
Do não dizer

Só quero sentir
Essa fobia estranha
De manha tamanha
De querer você

Sem as palavras
Pra cortar o prazer
Vou te querer
No meu silêncio

Ter aquecer
Com minha pele
Com a boca te envolver
Com um beijo emudecer

Só pra escrever
Com tinta transparente
Sem marcas sem registro
Meu amor em te ver.

(Ana Paula Marques)


Pele

Outro dia senti na pele o vazio do mundo...
É ela o muro que nos separa da realidade
É ela a barreira que nos distingue do outro, no fundo
É ela o limite da minha atividade
Da alteridade
Da agilidade
Da espiritualidade?

Um arrepio me passou pela pele.

Também é ela
a porta escancarada
da saída
e da entrada
da vida.

(Ana Paula Marques)


O CÂNCER
O câncer é como uma maçã
Que apodrece

Tudo vai escurecendo por dentro
A fruta perde sua consistência
Sabor? Não existe mais
Ser provada? Jamais!

A aparência degenera
Murcha
Encroa
Degrada
No meio das rugas e verrugas
Observa-se a pele estragada.

Indiferente ao processo
Por dentro já escura
Encontra-se a semente, intacta
Talvez até mais madura
Pensando, calada,
Em aproveitar
A terra agora estercada

(Ana Paula Marques)

Marte
Alguns viram um rosto humano,
Outros viram pirâmides
Outros viram vegetação
Há os que juram ver marciano.

Em ti, pequeno planeta vermelho
Vejo com muito desespero
Desertos frios
e pólos de gelo

Se o zelo
Não aprendermos
Como ti logo pareceremos
Já que a poluição não combatemos

(Ana Paula Marques)


Sentindo na pele

Outro dia senti na pele meu limite!
É ela o muro ao real
É ela a barreira à Afrodite
É ela a separação espaço-temporal

Um arrepio na pele
Um portão.
Reação?
Emoção.

(Ana Paula Marques)


Descrição

Certo dia, resolvi:
me descrevi
no papel.
Não cabia...
eu já sabia!

Novas folhas trazidas.
Muitas folhas
Mar de folhas esquecidas

Folhas-mortas
Árvores-mortas
Brancura
em pilha

Descrita!

(Ana Paula Marques)


VIDA PRÉVIA

Preconceito
Pré conceito
Conceito prévio

Ser negro
Ser mulher
Ser feio
Ser deficiente
Ser homossexual
Ser diferente
Ser gordo
Ser imigrante
Ser doido

Não são conceitos
São formas de ser
Ser vivo.

(Ana Paula Marques)


Vão aí algumas poesias escolarizadas:

POESIAS ESCOLARIZADAS

SOBRE CONHECIMENTO:

Texto mofado

Ler um bom texto
É como comer pão mofado
O assunto pão com manteiga
Tem, na fermentação das palavras
A libertinagem dos significados
Sentidos reproduzem-se
Como cultura de larvas
Além da funda dor de barriga
Agilmente mofam
Toda e qualquer
Mente vazia.

(Ana Paula Marques)


PALAVRA

Será que ninguém anunciará
da palavra, a função principal?
Não é esta a comunicação
Não é esta a expressão
Já ouviram substituição?

Qualquer animal é capaz de se fazer
pelo outro entender
Porém qual você já viu
Algum que substituiu
Aquilo que você vê,
Aquilo que você sente,
Aquilo que você crê,
Por pensamento?

O diálogo sustentado,
além da comunicação,
o mais da expressão,
com reflexão,
pela criação,
na interação
é fruto de substituição!

Fala, então
A dona soberana
da espécie humana.

(Ana Paula Marques)


MEMÓRIA DA POESIA

Nunca escreva poemas durante acontecimentos
Faça poesias sobre memórias
Pouco importa se são reais ou não
Pouco importa se são memórias do passado ou do futuro
Na poesia das memórias
Os acontecimentos
(sobre)vivem e se (re)produzem
As pessoas
Despertam
Descobrem
Se espantam
Amam
Aterrorizam
Desdenham
Vão adiante
E trazem para si
O mais importante:
Sentido...

(Ana Paula Marques)

poesia

Poesias são como minhocas

Habitam a massa por entre o aparente
Descobrindo um caminho diferente
Do lugar nenhum
Ao local algum

Depois de fertilizá-la
Com consumo de pragas
E depósito de detritos
Se esvaem pelos sentidos

Arejando a cuca
Colméia sem o mel
Preenchendo o papel
Descobrindo no própolis
Amargo! O mais saudável
Obrigando o oxigênio a entrar
E a vida a continuar

(Ana Paula Marques)

Significado

Quando Vygotsky
Falou que o significado
Era o tijolo
No edifício do sentido.
Contruí o meu!
De posse dos tijolos
Juntei muitas areias do tempo
E concreto do espaço
Um belo e comprido edifício
Foi criado.
Não durou em pé um dia!
Daí passei a fazer
Sentidos horizontais
Deitados
Perdi a referência
Do céu
Encontrei os Km
Da Terra
Não sobreponho mais tijolos
Misturo-os, na massa de minha terra,
Construindo
Caminhos.

(Ana Paula Marques)